Lixo, Mudanças Climáticas e Ecomomia Circular 

Por: Melina Costa, de Revista Exame

O químico alemão Michael Braungart lidera uma das vertentes mais radicais entre os defensores da chamada economia circular. O conceito prevê que os materiais usados num aparelho celular ou num automóvel sejam reutilizados após o consumo em novos processos produtivos. Braungart vai além: ele sugere que esse tipo de preo­cupação seja soberana na concepção dos produtos e na escolha dos materiais usados em sua confecção. De seu escritório em Hamburgo, Braungart concedeu a seguinte entrevista a EXAME:

Exame – O senhor prega que o foco em ampliar a reciclagem não é a maneira mais adequada de proteger o meio ambiente. Por quê?

Braungart – Nossos atuais produtos são incrivelmente primitivos no que diz respeito a questões ambientais. Você entra em contato com dezenas de químicos ao tocar um cupom de supermercado ou um tíquete de estacionamento. As cinzas de um jornal queimado são tão tóxicas que você não pode usá-las para agricultura.

É preciso reinventar tudo, porque esses produtos não foram feitos para nós. Um xampu com silicone, por exemplo, reveste não só os fios de cabelo mas também os recifes de corais. Globalmente, colocamos 10 milhões de toneladas de plástico nos oceanos todos os anos. Se diminuirmos 10% disso, resolve? Não. Precisamos rever a produção de plástico desde o início.

Tradicionalmente, pensamos em proteger o meio ambiente quando diminuímos o consumo de água, a conta de energia, a produção de resíduos. Mas esse tipo de proteção apenas reduz os danos. Representa fazer a coisa errada de maneira controlada. É como dizer: proteja seus filhos, bata neles apenas cinco vezes em vez de dez.

Exame – Não é uma ideia radical demais?

Braungart – Afinal, cadeias inteiras de produção precisariam ser transformadas. Qual é a alternativa? Se não mudarmos, seremos pessoas demais neste planeta. A alternativa é, em vez de reduzir o consumo de energia nos prédios, construir prédios que sejam como árvores, que limpem o ar. Em São Paulo, as pessoas perdem anos de vida devido à má qualidade do ar.  Exame – É mais caro produzir pelo modelo da economia circular?

Braungart – Em tese, o produto é aproximadamente 20% mais barato porque não é preciso gerenciar o resíduo no final. A inteligência na produção se dá no começo. Quando se escolhem os materiais no início, não é necessário tratar o lixo. A questão da saúde ocupacional também fica mais fácil. Mas leva tempo para mudar o sistema produtivo. Por isso não queremos mudar as coisas imediatamente.

Exame – De maneira prática, ainda temos um problema sério com o lixo acumulado — como lidar com isso?

Braungart – Sim, precisamos de fases transitórias. Eu criaria “supermercados de resíduos”. Na Europa, dois terços dos aparelhos de TV dos quais as pessoas querem se livrar estão intactos. Precisamos apoiar mercados de produtos usados, estabelecer sistemas de coleta de produtos pós-consumo e desenvolver sistemas de desmontagem de produtos. Estamos, provavelmente, bem no começo. Veja o caso dos aparelhos celulares: retornamos para a indústria apenas nove dos 41 elementos que estão presentes lá. No fim do ano, líderes políticos estarão reunidos em Paris durante a conferência da ONU sobre a mudança do clima, a COP 21.

Exame – O objetivo é alcançar um acordo para limitar o aumento da temperatura global em 2 graus Celsius. Qual é sua opinião a respeito dessa meta?

Braungart – Estive na conferência da ONU em Copenhague, em 2009. Fazia frio, 10 graus negativos, e estávamos falando do efeito estufa. O design da conferência como um todo foi um desastre. Não sei qual vai ser a organização da conferência de Paris, mas acho que o objetivo de 2 graus Celsius é um pouco estranho. A natureza não funciona dessa maneira. O mais importante seria aprender a colocar os materiais de volta em seus ciclos.

Site: http://exame2.com.br/mobile/revista-exame/edicoes/1093/noticias/como-o-alemao-michael-braungart-quer-acabar-com-o-lixo

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